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26 de Outubro de 2020

"O Príncipe" de Nicolau Maquiavel

Por Isabella de Oliveira Teixeira

Isabella Teixeira, Estudante de Direito
Publicado por Isabella Teixeira
há 4 anos

Maquiavel deixa claro que os principados dos quais sua obra faz inúmeras referências diferem-se das repúblicas. Dentre os principados de qual se é tratado, Maquiavel os diferencia entre: hereditários e os novos. Os principados hereditários não são tão relevantes para o autor, já que os mesmos são dotados de demasiada estabilidade. Neste caso, basta o príncipe na ultrapassar em absoluto os limites estabelecidos pelos antepassados, mas apenas contemporizar com os acontecimentos correspondentes à sua realidade. Já os principados novos envolvem dificuldades maiores, desde sua conquista até a conservação do mesmo. Esse tipo de principado pode se subdividir entre aqueles que são inteiramente novos e aqueles que são agregados ao Estado hereditário, formando o que se chamar de corpo misto. Além dessas considerações, Maquiavel ainda coloca uma categoria a parte, os principados eclesiásticos, que não recebem tanto importância. Em vista de tudo isso, o autor elabora um código prático, propondo soluções para os problemas oriundos da conquista até a conservação.

Para todo Estado, antigo, novo ou misto, as principais bases são boas leis e boas armas, mas não pode haver boas leis onde não há boas armas. Refere-se a boas armas não como sendo os mercenários (tropas, particulares do príncipe, desunidas, ambiciosas, sem disciplina, infiéis covardes e que fogem durante a guerra), mas sim as armas que são próprias ao príncipe, compostas de seus cidadãos, de seus súditos.

Maquiavel coloca algumas possibilidades de conquista e correspondentes conservações para os principados: pode-se conquistar pela própria virtu (energia, vigor, resolução, talento, bravura, ferocidade), ou seja, fazendo uso de armas próprias; ou pela fortuna e pelas armas alheias; ou as que se devem ao favor e consentimento dos concidadãos. Porém, é colocado pelo autor que ninguém, qualquer que seja a própria virtu, se acha inteiramente subtraído à força cega que é a fortuna. Portanto, o homem pode e deve resistir à fortuna, preparando-se com a sua virtu.

Aqueles que se tornaram príncipes pela própria virtu e pelas próprias armas têm muitas dificuldades para se instalar no principado, mas depois tem muita facilidade em conservá-lo. A fim de firmar um novo governo e garantir segurança ao príncipe, é necessário o estabelecimento de novas instituições. Isso corrobora a maior das dificuldades iniciais desses príncipes. Para Maquiavel, alcança-se sucesso nessas dificuldades quando o príncipe tem os meios para constranger, ou seja, que tenha condições de empregar a força. Isso é dito levando-se em conta a natureza inconstante do homem que torna a obrigação por meio do uso da força uma arma mais eficaz.

Os principados que foram conquistados por meio de armas alheias, ou seja, por meio da fortuna se caracterizam pela facilidade na conquista, mas encontra dificuldades em sua conservação. É dito isso em consideração ao foto de que, segundo o autor, Estados subitamente formados carecem de raízes profundas e correm o rico de desmoronarem diante da primeira dificuldade.

Maquiavel ainda considera a ocorrência de tornar-se príncipe por meio de perversidades. Nesse caso, leva em conta que existem crueldades bem praticadas e crueldades mal praticadas. Aquelas que são bem praticadas são as que se cometem todas ao mesmo tempo, no início do reinado, a fim de prover a segurança do novo príncipe. Assim, o príncipe deve determinar as crueldades que considerar útil cometer e executá-las em conjunto, já que, aparentemente, quando experimentadas por menos tempo, parecem menos amargas. Em compensação, os benefícios devem ser feitos de forma gradativa para melhor serem aproveitados. Já as crueldades mal praticadas são aquelas que são pouco numerosas no início, mas que se arrastam e multiplicam com o tempo. Assim, os súditos perdem, então, o sentimento de segurança, fazendo com o que o príncipe não possa contar com eles e se vê obrigado a conservar “a faca na mão”, o que gera maus resultados.

Segundo Maquiavel, ainda é possível a conquista de um principado pelo favor dos concidadãos. Para esse caso, é necessária uma habilidade feliz para combinar algum virtu e alguma fortuna. Um príncipe, então, será constituído pelo povo ou pelos Grandes. Analisando essa ideia, vemos que o povo não quer ser governado nem oprimido pelos Grandes, enquanto os Grandes desejam governar e oprimir o povo. Assim, o povo coloca suas esperanças em um particular crendo que o mesmo o defenderá, assim como os Grandes elegem um deles para que se mantenham a sombra do mesmo para conseguirem satisfazer os seus desejos.

Ainda seguindo a ideia acima exposta, Maquiavel observa que os príncipes alçados pelo povo encontram menos dificuldades para manterem-se do que aqueles alçados pelos Grandes. Isso se explica no fato de ser mais fácil satisfazer o povo, que apenas deseja não ser oprimido, enquanto os Grandes desejam oprimir.

Mesmo sendo alvo de pouco interesse por parte de Maquiavel, os principados eclesiásticos são considerados aqueles que são adquiridos ou por fortuna ou pela virtu. Sua conservação, no entanto, não depende nem da fortuna nem da virtu, mas sim do poder das antigas instituições religiosas.

Através do estudo sobre os principados, o leitor de “O Príncipe” procura a pessoa concreta que dá a esses governos o valor e tom, ou seja, o príncipe.

Maquiavel desenvolverá, então, sua análise em torno da questão de como os príncipes devem proceder em relação a seus súditos e amigos. A princípio, o autor nos coloca que o novo príncipe vive no seio do perigo: um remete ao interior do seu Estado, ao comportamento dos seus súditos; e o outro é uma preocupação com o exterior, as potências que circundam seu Estado.

Assim, o príncipe que deseja manter-se em uma posição boa, deve aprender a não ser sempre bom, ou seja, ser bom ou não ser conforme a necessidade. É óbvio que é desejável que um príncipe reunisse todas as qualidades possíveis, isto, porém, é algo impossível já que, segundo Maquiavel, a condição humana não suporta. Diz-se que alguns vícios e certos defeitos vem a ser necessários para se conservar o Estado, ao contrário, utilizando-se de algumas qualidades em excesso, ocorreria a perda do mesmo.

Analisando a questão da liberalidade, Maquiavel observa que seria bom ter a reputação de liberal, porém, as liberalidades em excesso acabam por conquistar muito poucos indivíduos e por erguer contra ele imenso número, tornando-o odioso aos súditos.

De outro lado, outra questão se impõe para sua análise: mais vale ser amado que temido ou temido que amado¿ Chega-se a conclusão de que é preferível ser temido à amado. Um dos motivos encontrados é o fato de que os homens receiam muito menos em ofender aquele que se faz amar do que aquele que se faz temer. Isso se explica porque vínculo do amor se rompe ao sabor do interesse próprio, enquanto temor sustenta-se por um medo de castigo que jamais o abandona. Mas que fique claro que ser temido nada tem a ver com ser odiado. O segundo, ao contrário do primeiro, é algo grave e que não deve existir entre os súditos. Evita-o não atentando aos bens e mulheres dos súditos.

Dando continuação ao seu estudo, Maquivel afirma que é necessário um príncipe agir tanto como homem quanto como animal. Explica-se isso devido ao fato de que é próprio do homem combater pelas leis com lealdade e fidelidade e é próprio do animal combater pela força e pela astúcia. Assim, deve possuir ambas as naturezas para que se amparem. Dentre os animais, diz-se que o príncipe deve ser um modelo de leão e raposa, pois se for apenas leão, não perceberá as armadilhas; se for só raposa, não se defenderá contra os lobos. Com isso, em questão de compromissos e promessas, o príncipe deve ser raposa.

O príncipe ainda deve saber escolher seus conselheiros e ministros. Sabe-se, no entanto, que somente um príncipe prudente pode ser bem aconselhado, já que deve sempre aconselhar-se sem jamais se deixar dominar por aqueles que o aconselham. Será bom ministro aquele que nunca pensa em si mesmo, mas sempre no príncipe e que só lhe fala do que diz respeito ao Estado. Da mesma forma, o príncipe deve demonstrar gratidão aos ministros mostrando consideração de honra.

Capítulo I

De quantas espécies são os principados, e quantas são as maneiras em que se adquirem

Em seu primeiro capítulo, Maquiavel nos introduz às espécies existentes de Estado que são, assim diz ele, repúblicas ou principados. Sendo, os últimos, hereditários e estabelecidos à tempo, ou novos, conquistados por armas do príncipe, ou de outros, ou por sorte ou por habilidade.

Capítulo VI

Dos principados novos que são conquistados pelas armas e com nobreza

Os homens sábios devem sempre seguir os caminhos traçados por grandes homens, querer/tentar imitar os feitos realizados pelos bem-sucedidos, almejando o além para se conseguir o necessário: “Deixe que ajam como os arqueiros espertos, querendo atingir um ponto que parece estar muito distante, e, sabendo os limites dos seus arcos, miram muito além do ponto que querem atingir, não para alcançar com sua flecha tanta altura, mas para poder, com a ajuda de uma mira tão alta, atingir seu alvo.” (pág. 49 – O Príncipe)

A dificuldade de se estabelecer em principados conquistados está diretamente relacionada à dependência ou não do príncipe em relação aos servos e a sorte. Aquele que conquistou o principado por si só, através de habilidade própria, encontra dificuldade para a conquista, porém facilidade para a conservação. A sorte só é vislumbrada no momento da oportunidade de conquista, a qual homens sábios e virtuosos não perderiam, porém, a conquista em si, é adquirida à partir do poder de suas mentes e ações.

Além disso, o príncipe forte consegue introduzir suas regras e métodos, contendo revoluções de seus inimigos, usando a persuasão ou a própria força se necessário, impondo-se e, ao exterminar os invejosos, adquirem poder e respeito perante os demais.

Capítulo X

Como devem ser medidas as forças de todos os principados

Príncipe forte é aquele que consegue se manter sozinho, que, por abundância de homens ou de dinheiro, consegue formar um grande exército para proteção de seu principado. Os dependentes que não conseguem travar uma batalha com quem os atacar se refugiam atrás dos muros de seus principados.

No caso de príncipes dependentes, seu interesse e poder apenas será mantido se o mesmo fortificar as suas cidades e lidar com as preocupações de seus súditos, afastando assim os inimigos, que encontrariam grande dificuldade em invadir cidades bem fortificadas e lutar contra um príncipe que é amado pelo seu povo. Essas cidades devem se prover de eficientes fossos e muros, artilharia suficiente para a defesa e conservar grandes depósitos de comida e bebida. Além disso, o príncipe deve oferecer trabalho para que seus súditos consigam seu sustento e, principalmente, leis para ordená-los.

Em relação às perdas, o príncipe poderoso deve apoiar seus súditos, agindo como pilar de sustentação e dando-lhe esperança, além de fazer com que os súditos sintam medo da crueldade do inimigo, para que não possam se unir a eles. Ao perder seus bens e apoiar o príncipe, mesmo envoltos em sua “autopiedade”, os súditos terão o pensamento de que o mesmo esteja em dívida com eles estando, assim, mais prontos para se unirem, pois é natural ao homem se unir tanto na glória quanto na miséria.

Capítulo XV

Das razões pelas quais os homens, e sobretudo os príncipes, são louvados ou vituperados

Maquiável se propõe a fazer uma análise de como um príncipe deve se comportar com seus súditos e amigos levando em conta os fatos da realidade e não ficando no campo das suposições. Em vista disso, Maquiável se coloca a escrever algo útil e portanto não pensa nas coisas como “deveriam ser”, mas sim o modo as coisas são.

Segundo o autor, é necessário que um príncipe tenha em si a capacidade de ser mau, mas mais importante ainda é que o mesmo deve saber utilizar da capacidade para quando necessite. Isso se torna essencial para a conservação do poder.

O que o autor expõe, no entanto, não é aplicado somente aos príncipes, mas também à todos que possuem uma posição alta. Nesse sentido, os mesmos fazem-se notáveis pelas qualidades que podem causar reprovação ou louvor.

Dentre as qualidades e defeitos que existem, é fato que se desejaria que os príncipes possuem somente as atribuições consideradas boas. No entanto, segundo o autor coloca, a condição do homem não permite que ele possua todas e não é apto para praticá-las. Com isso, é necessário que o príncipe tenha prudência ao saber evitar os defeitos que causariam a perda do governo e praticar qualidades para garantir a posse do mesmo.

Finalizando o tema, Maquiável nos apresenta o fato de que o príncipe não deve permitir que as coisas sigam seu curso natural. Nesse caso, o príncipe deve fazer uso de suas atribuições (defeitos ou qualidades) diante de um fato, já que até mesmo alguns defeitos podem ser responsáveis por salvar seu governo.

Capítulo XVI

Da liberdade e da parcimônia

Para Maquiável, a prática de modo virtuoso da liberalidade é algo que é ignorado pelo povo. Além disso, a liberalidade, quando utilizada para se fazer fama de liberal, não pode ser tida como virtude. Assim, para se conservar fama de liberal é necessário existir demonstrações de suntuosidade, de modo que o príncipe realizará muitos gastos com tais obras, e também necessita-se que o povo fique marcado quanto a sua crueldade no fisco e tenha conhecimento que o príncipe de tudo fará para conseguir dinheiro.

O que é observado, então, é que a ação para conservar a fama de liberal acaba por tornar o príncipe odiado pelos súditos. Assim, quando o mesmo cai no empobrecimento, acaba por perder a estima de muitos e, na tentativa de retrair-se, torna-se alcunhado de avaro.

Portanto, um príncipe deve gastar pouco para que não seja obrigado a roubar de seus súditos, para ter como defender-se, para não empobrecer (e consequentemente fazendo-se alvo de desprezo) e não importar-se quando chamado de miserável.

Segundo o autor, para quem é príncipe a liberalidade é algo prejudicial. Porém, para aqueles que almejam tornar-se príncipes, a liberalidade é algo necessário, assim, o mesmo não deve omitir nenhuma liberalidade.

Um príncipe liberal gasta aquilo que é seu ou aquilo que pertence aos seus súditos ou que pertecem a outros. Porém, é mais pródigo gastar aquilo que pertence a outrem do que aquilo que lhe é seu ou dos súditos, já que isso não o rebaixa, mas sim, eleva a fama. Além disso, a liberalidade caminha para a pobreza e a necessidade e, na tentativa de livrar-se da probreza, faz-se odiado e necessitado perante o povo (o que deve ser evitado).

Conclui-se, portanto, que é melhor ter fama de miserável, o que acaba por levar à uma má fama sem ódio, ao invés de manter a tentativa de obter a fama de liberal, levando o príncipe a fazer uso de meios que o tornariam infâmio e odioso.

Capítulo XVII

Da crueldade e da piedade – se é preferível ser amado ou temido

Maquiavel afirma que um príncipe deve querer ser considerado piedoso e não cruel, porém, tal piedade deve ser empregada corretamente. O príncipe não deve importar-se de ser tachado de cruel quando tal crueldade é empregada com a finalidade de manter seus súditos unidos e com fé, porque dessa forma, quando a piedade for empregada em determinadas exceções, será mais bem vista do que quando utilizada em excesso, que acaba por surgir desordens.

Deste ponto de vista, observa-se que os príncipes novos são os que menos devem tentar fugir da alcunha de cruéis, já que, tendo que estabelecer seu governo recente, está repleto de perigos. Isso ocorre devido ao fato de que sendo cruel, o príncipe atinge somente a um indivíduo, enquanto que as consequências de ser piedoso em excesso traz atos prejudiciais ao povo inteiro.

Para Maquiavel, é preferível ser temido do que amado. Essa ideia surge do princípio de que os homens, no geral, são seres volúveis, covardes, ambiciosos. Sendo dessa forma, prometem ao príncipe fidelidade até o momento em que o mesmo lhes proporciona benefícios. Porém, a partir do momento em que o príncipe se encontrar em necessidade, estes lhe virarão as costas. Com isso, se o príncipe apenas confiou nas palavras e não tomou certas atitudes, acaba por prejudicar-se.

A cerca dessa ideia, Maquiavel ainda diz que é melhor ser temido do que amado devido que o amor é um laço de obrigação e que é facilmente rompido devido a natureza, anteriormente citada, dos homens. Ao contrário disso, porém, o medo alimentado pelo temor do castigo é algo que se instala no homem e, com isso, os homens hesitam mais em ofender a quem temem.

Conclui-se que o príncipe deve fazer-se temido, mas amando-os como querem ser amados. Dentro disso, deve evitar ser odiado, não apossando-se do alheio (bens e mulheres).

Capítulo XVIII

De que maneira devem os príncipes guardar a fé da palavra empenhada

De acordo com a mitologia, Aquiles e muitos outros príncipes foram confiado aos cuidados de Quíron, criatura metade homem e metade humano, que os educou conforme sua disciplina. É com este entendimento que Maquiavel defende que os príncipes devem usar tanto da inteligência (em forma de lei), própria do homem, quanto da força, própria ao animal, e que essas duas naturezas se complementam. Ou seja, o homem deve usar de seu princípio racional, porém, se não for o suficiente, não deve se privar de usar a força, se fará necessário que se recorra a ela. O príncipe deve ser possuidor destas duas características “é necessário ser uma raposa para conhecer os laços e um leão para aterrorizar os lobos” (pág. 140 – O Príncipe)

O príncipe não deve deixar de ser bom sempre que possível, mas deve, se necessário, saber ser o contrário contanto que o resultado de suas ações seja bem visto pelos olhos da população, dando ênfase na frase “os fins justificam os meios”. O príncipe pode não ter todas as qualidades que se espera dele, porém deve dar a impressão de possuí-las para ser bem visto pelo seu povo, que sempre se deixa levar pelas aparências e pelos resultados. O príncipe não deve deixar de parecer fiel, piedoso, humano, religioso e íntegro perante seus súditos.

Capítulo XIX

De como se deve evitar o ser desprezado ou odiado

O príncipe deve evitar ser odiado e desprezado. O que mais faz o príncipe ser odiado é a usurpação dos bens e mulheres do súdito. Um homem esquece mais rápido uma morte do que a perda de um bem. Deve ter cautela quanto aos súditos e as potências estrangeiras. A situação interna permanecerá tranqüila se não for perturbada por conspirações e um dos mais poderosos remédios contra as conspirações é não ser odiado pela massa popular; o conspirador acredita sempre que a morte do soberano satisfará o povo.

Assim, o príncipe, embora não possa evitar de ser odiado por algumas pessoas, deve buscar em primeiro lugar evitar o ódio das massas e se não conseguir, evitar o ódio dos poderosos.

Capítulo XX

Se as fortalezas e tantas outras coisas que cotidianamente são feitas pelo príncipe são úteis ou não

Maquiavel inicia sua análise com a ideia de que um príncipe novo não deve desarmar os seus súditos, mas sim armá-los. Dessa forma, ele conseguiria tornar fiéis aqueles que era suspeitos e mantém que já lhe era fiel. Caso o príncipe desarmasse seus súditos, os mesmos entenderiam que ele não confiava neles ou então que ele era covarde. Isso acabaria por tornar o príncipe odiado.

A exceção para este caso seria quando há a conquista de um novo Estado que deve ser anexado aos domínios do príncipe, fazendo-se necessário desarmar tal Estado (menos aqueles que te ajudaram a conquistá-lo).

Outra ideia que Maquiavel expõe é o fato de pensar que dividir os domínios para facilitar a administração não era algo positivo. Explica isso, argumentando que tais divisões são boas em épocas de paz em que facilita o governo do príncipe, contudo, em época de guerra torna-se mais fácil a perda de territórios.

Segundo o autor, o príncipe, em seu gorverno, deve saber fomentar inimizades contra si próprio para que quando alcance vitória perante seus inimigos consiga se engrandecer.

Maquiavel nos diz que o príncipe encontrará mais fé e mais facilidade em criar amizade com aqueles que antes lhe eram suspeitos do que com aqueles que lhe tinham confiança. Nessa situação, se o príncipe subiu ao poder com o apoio do povo por este ter se aliado por um descontentamento com regime anterior, será muito difícil satisfazer os desejos do povo. Assim, é mais fácil para o príncipe criar amizade com aqueles que antes eram seus inimigos, ou seja, aqueles que nada tinham contra o antigo regime.

Tendo por fortaleza uma artimanha utilizada pelos príncipes para conservar o seu Estado na ideia da mesma ser utilizada como freio para quem pensar em atacá-los ou de refúgio seguro em caso de ataques, Maquiavel observa que elas podem ser úteis ou não, dependendo das circunstâncias em que se encontram. Contudo, não se deve confiar somente na construção de fortalezas como forma de proteção. Maquivel diz que mais importante do que qualquer fortaleza é o fato do príncipe não ser odiado, pois assim, terá uma arma poderosa como aliada: o povo.

Capítulo XXI

O que um príncipe deve realizar para ser estimado

É certo para Maquiavel que a realização de grandes empreitadas e a demonstração de raros exemplos quanto a seu governo tornam o príncipe estimado pelo povo.

Relativo aos exemplos que devem ser dados, Maquivel diz que é necessário o príncipe, em tudo que fizer, conquiste a reputação de grande homem. Assim, na punição ou na premiação de algum indivíduo, o príncipe deve agir de modo a gerar grandes comentários.

A estima também é adquirida pela capacidade do príncipe de saber ser inimigo ou amigo. Deve, portanto, sempre tomar algum partido diante de algo e não mater na neutralidade.

Maquiavel afirma que todas as decisões tomadas são incertas já que não há como prever as consequências e os incovenientes que dela surgirão. Assim, é necessário ter ciência dos inconvenientes para poder então escolher por aquele será menos prejudicial.

O príncipe deve mostrar-se honroso com àqueles que se destacam em determinada arte, estimulando os cidadãos a praticarem com liberdade as suas atividades. Além disso, o mesmo deve, em certas épocas do ano, dar festas, espetáculos ao povo.

Capítulo XXII

Dos ministros dos príncipes

Para um príncipe é muito importante a escolha dos ministros, sendo eles bons ou rins de acordo com sua prudência. O príncipe quando possui homens competentes e leais a sua volta é considerado sábio, caso contrário pode-se avaliar como mal o senhor por cometer o erro nessa escolha. É possível identificar 3 tipos de cabeça: A excelente (compreende as coisas por si própria), a muita boa (sabe discernir o que os outros entendem) e a inútil (não entende nem por si, nem sabe avaliar o trabalho dos outros).

Para o príncipe conhecer bem o seu ministro deve analisar o seu comportamento. O ministro que pensa mais em si mesmo do que no príncipe, e que procura tirar proveito pessoal de todas as ações do príncipe não é considerado bom e não poderá confiar nele. O ministro devera sempre cuidar dos negócios de Estado sem pensar em si, mas sempre no príncipe. E o príncipe deve pensar no ministro, honrando-o, tornando-o rico, fazendo-o tomar parte de honrarias e de cargos para ter garantia dele.

Capítulo XXIII

De como se evitam os aduladores

Para evitar os aduladores um príncipe prudente deve escolher os homens sábios de seu Estado, e apenas a estes deve conceder o direito de dizer-lhe a verdade, somente quando forem perguntados. Fazendo consultas a eles sobre tudo e ouvir suas opiniões e deliberar como quiser e com os conselhos deles, mostrando-lhes que quanto mais tiverem liberdade para falar, mais facilmente suas opiniões serão seguidas. Caso contrário, agindo de outra forma o príncipe ou é precipitado pelos aduladores ou muda muitas vezes de opinião, originando então a falta de confiança.

O príncipe sempre deve pedir conselhos, mas somente quando quiser, tirando de todos o desejo de aconselhar sem que lhe seja solicitado. O príncipe deve fazer muitas indagações, e ouvir com paciência, mas quando julgar que alguém não esteja dizendo a verdade deverá demonstrar desagrado. Tornando tudo isso mais claro com um trecho retirado do livro na página 139 “Concluo então que os bons conselhos, venham de onde vierem, decorrem da prudência do príncipe, não a prudência do príncipe dos bons conselhos.”

Conclusão

Em sua obra O Príncipe, Nicolau Maquiavel mostra a sua preocupação em analisar acontecimentos ocorridos ao longo da história, de modo a compará-los à atualidade de seu tempo. O Príncipe consiste de um manual prático dado ao Príncipe Lorenço de Médicis como um presente, o qual envolve experiência e reflexões do autor. Maquiavel analisa a sociedade de maneira fria e calculista e não mede esforços quando trata de como obter e manter o poder. No entanto, o efeito imediato da obra foi nula, considerando que o príncipe em questão não lhe dispensou atenção alguma e não cuidou de recompensar o autor.

Maquivel dá uma configuração própria para a questão da política. É perceptível em sua obra que o mesmo trata da política como uma atividade autônoma, com seus princípios e leis diversos daqueles da moral e da religião, ou seja, trata somente do Estado e “proclama” a autonomia da política. Nesse sentido, prega a razão do Estado, vendo o homem como a matéria-prima do Poder.

Ao escrever O Príncipe, Maquiavel desejava guiar os governantes, alertando-os sobre as armadilhas da selva política. Seu livro é um manual de auto-preservação para líderes mundiais. Em sua obra O Contrato Social, Rousseau propõe uma explicação tão brilhante quanto falsa. Maquiavel teria escrito O Príncipe a fim de informar e prevenir os povos, revelando-lhes os espantosos segredos do comportamento dos tiranos. Assim, simulando dar lições aos reis, deu grandes lições aos povos.

Maquiavel coloca a necessidade do Estado como a mais importante e que se sobrepõe a todas as outras. Assim, para atingir este elevadíssimo fim, concorda (e afirma que todos os que compartilham do seu pensar também concordam) que sejam empregados os meios necessários para alcançá-lo. Pode-se dizer que Maquiavel se propôs a educar o povo, mas não no sentido habitual. Para Maquiavel, educar o povo tinha o significado de apenas de convencê-los e conscientes de que pode existir apenas uma política para alcançar o objetivo desejado e que, portanto, é preciso obedecer àquele príncipe que emprega tais métodos.

Nas palavras de Croce (no livro Storia Del Barocco): “Maquiavel, pelo próprio fato de temperar o cetro, etc., de tornar o poder dos príncipes mais coerente e consciente, desfolha os seus louros, destrói os mitos, mostra o que é realmente este poder; quer dizer, a ciência política como ciência é útil tanto aos governantes como aos governados para entenderem-se reciprocamente”.

Ao tratar abertamente da questão política, Maquiavel adquiriu muitos adversários. A crítica se concentra no fato de Maquiavel ter mostrado como os príncipes governam e, assim fazendo, instruiu o povo, tendo este o conhecimento da forma como os governantes agem sobre eles, os governados. Assim, Maquiavel é odiado porque revelou os segredos da arte de governar.

Costuma-se dizer que as normas de Maquiavel para a atividade política são aplicadas, mas não são ditas. Além disso, é de conhecimento do autor que as coisas que ele escreve sempre foram e são aplicadas pelos maiores homens da História.

Maquiavel é, em sua totalidade, um homem da sua época (uma expressão do seu tempo ligado às condições e às exigências da sua época). Sua ciência política representa a filosofia do seu tempo, que tende à organização das monarquias nacionais absolutistas, a forma política que permite e facilita um desenvolvimento das forças produtivas burguesas. Pode-se descobrir em Maquiavel que sua ferocidade dirige-se contra os resíduos do mundo feudal. O príncipe, nesse caso, deve acabar com a anarquia feudal.

A “democracia” de Maquiavel é uma adaptação ao seu tempo. Assim, é o consenso das massas à monarquia absolutista como limitadora e destruidora da anarquia feudal e do poder dos Papas, e como fundadora de grandes Estados Nacionais (o que era necessário com o apoio da burguesia e de um exército centralizado).

Ao escrever O Príncipe, Maquiavel expressou nitidamente os seus sentimentos de desejo de ver uma Itália poderosa e unificada. Expressou também a necessidade (não só dele, mas de todo o povo italiano) de um monarca com pulso firme, determinado que fosse um legítimo rei e que defendesse seu povo sem escrúpulos e nem medir esforços.

Para Maquiavel, um príncipe não devia medir esforços nem hesitar, mesmo que diante da crueldade ou da trapaça, se o que estiver em jogo for a integridade nacional e o bem do seu povo. Sua obra configura que para permanecer no poder, o líder deve estar disposto a desrespeitar qualquer consideração moral, e recorrer inteiramente à força e ao poder da decepção. Maquiavel também afirma que, se necessário, um governante deve mentir e trapacear. O autor declara que é melhor para um líder caluniar do que agir de acordo com suas promessas, se estas forem resultar em conseqüências adversas para sua administração e seus interesses. Da mesma forma que Maquiavel acreditava que os líderes deveriam ser falsos quando preciso, aconselhando-os a ficarem atentos em relação às promessas de outros: eles também podem estar mentindo caso seja de interesse deles.

Maquiavel escreveu que um país deve ser militarmente forte e que um exército pode confiar somente nos cidadãos de seu país – um exército que dependia de mercenários estrangeiros era fraco e vulnerável.

Referências bibliográficas

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe – comentado por Napoleão Bonaparte. São Paulo: Hemus, 1977.

CHEVALLIER, Jean-Jacques. As grandes obras políticas de Maquiavel a nossos dias. Rio de Janeiro: Agir, 1998.

GRAMSCI, Antonio. Maquiavel, a política e o Estado Moderno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.

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de fato esse homem e seu pensamento representou e representa hoje em dia continuar lendo